HOPE
milagre número x:
| ?
a gente perde a gravidez…
e, se não ficar esperta…
a gente, também…
pode se perder…
| se perder, não se perca!
um guia prático para te ajudar
a sair sem muitos traumas de
uma gravidez que não vingou
o coração do embrião parou…
por mais que doa - e vai doer -
a gente precisa saber que, se perdemos…
era isso mesmo o que tinha que acontecer…
Se perdemos é porque
aquele embriãozinho…
não tinha condições de sobreviver…
Por mais que doa….
A gente precisa tentar entender…
Foi melhor assim. Era pra ser.
Pra você. Pra ele.
E pro seu bebê arco-íris
que precisa nascer.
Temos que saber que
‘o Cara lá de cima’ sabe
muito mais que a gente, aqui em baixo…
Por mais que doa…
1
era o que tinha que acontecer…
e, mais importante ainda…
a culpa não foi sua…
não tinha absolutamente nada
que você pudesse fazer para
evitar essa perda de acontecer…
saber que a culpa
não foi sua é o passo nº 2
3
arrume alguém
para cuidar de você!
passo 4
espere!
A gente entende…
que não é a situação
mais confortável do mundo…
Mas,
neste momento…
esperar parecer ser…
a melhor coisa que temos a fazer…
É um luto.
Eu sei…
Mas…
tenta pensar como
um tempo que você
precisa passar com você….
para se reestruturar e terminar
de viver tudo que tem para viver
com a gravidez que está dentro de você…
5
o que fazer para
tentar ajudar a expulsão
da perda a acontecer
o que fazer
para tentar
acelerar o processo
6
vá ao PS obstétrico
7
leve o material para exame
cromossômico, não para AP
| HOPE
humanização
obstétrica
nas perdas
falar de como são conduzidas as perdas pelos GOs
falar das bioquímicas por choriomon
vesícula hidrópica
não sei muito bem como escrever ou o que escrever sobre isso…
Para gente ser humana, de verdade,
a medicina da reprodução não pode
só cuidar de quem não engravida.
A gente precisa, também,
cuidar melhor de quem perde.
quem perde
está quebrado
precisamos abraçar
e ajudar a juntar os cacos.
humanizando as perdas
Não tem como a gente falar de humanizar
sem, em primeiro lugar, em quem perde.
Na medicina da reprodução,
quem perde é quem mais sofre.
E, sofre duplamente:
pela perda
e pela nossa incapacidade
em lidar, da forma correta,
com a situação.
Eu sei, eu sei, não é fácil.
É muita gente pra cuidar,
muito serviço acumulado.
Mas por isso, tinha que ser a gente.
Não podia ser qualquer um, não.
Então, vamos lá.
Um guia prático para nossos heróis do front
da guerra que um pronto socorro de obstetrícia é.
Todos os dias.
pare de fazer toque à toa
-Colo fechado! - diz o obstetra, tirando a luva.
Já vi essa cena mil vezes.
Pior: já fiz isso mil vezes.
Mas, a cada vez que fiz, fiz ‘obrigada’.
Se o colo estiver aberto a paciente estará sangrando horrores, mal conseguindo andar de tanto sangue que deve estar saindo.
Então, se a paciente não está sangrando,
não há porque tocar.
É incômodo. Machuca.
E ela já está tão machucada, já…
Ofereça seu colo… seu ouvido, seu ombro, sua ajuda…
Mas… tocar… não vai ajudar…
converse.
tire suas dúvidas.
explique porque
esperar é a melhor conduta.
Pede os exames de sangue
que a gente já costuma pedir.
Fala que você tá sempre por ali,
para o que precisar.
Fala o dia dos seus plantões.
Para ela ter alguém que já conheça
o caso dela para procurar.
Para ela não ter que contar a história
todos os dias que for lá, para acompanhar.
Não custa nada pra você.
Mas, pra ela…
Você não imagina o bem que vai fazer…
não faça curetagem
Fazemos curetagem
pelo mesmo motivo que
fazemos citrato de clomifeno:
É barato.
E, alguém, algum dia,
nos ensinou como se fazia.
Ah, sim!
Tem um motivo a mais:
Desconhecemos
o tamanho do estrago
que ele faz.
Você ficaria chocado se eu te contasse
a quantidade de mulheres que, depois
de uma ‘curetinha’, passaram a ter
problemas - sérios - no endométrio…
Mulheres que, antes, nunca haviam tido
nenhum tipo de problema no endométrio…
olhe com os olhos
Nós, obstetras, desenvolvemos
uma habilidade muito especial:
A gente vê sem olhar.
A gente enxerga
com a ponta dos dedos.
A gente toca e sabe quantos
centímetros que o colo está.
E, depois, a gente aprende a ‘raspar’.
A gente aprende a ‘enxergar’ com a cureta,
como se ela fosse a extensão do nosso dedo.
Não é.
Uma cureta, é uma colher.
A gente não consegue sentir
o que ela está a tocar.
Então, quando você, for curetar,
quando você for raspar um útero,
lá dentro, com uma cureta…
Não importa o quão maravilhoso você seja…
É uma cureta…
Você já não está enxergando…
E não dá pra ‘sentir’, não é o seu dedo, lá…
Não tem jeito…
A gente, com o tempo, erra menos.
Raspa menos onde já foi raspado demais.
Cureta com mais cuidado…
Quase chega a conseguir
sentir o endométrio, lá…
Quase… mas…
não dá pra sentir….
Infelizmente….
Mesmo que você
seja muito experiente…
Não tem jeito…
Muitas vezes…
Você vai errar…
Vai perfurar o útero…
Ou vai raspar bem mais
em um lugar que não
era mais para raspar…
E isso pode acabar
sendo a diferença…
entre alguém vir a ter
ou não um bebê…
entre ter
um filho…
e não ter…
na vida daquela mulher…
Para de se contentar
em fazer o barato.
Se pode estragar
o útero de alguém,
é caro demais…
Quanto custa pra consertar?
Quanto custa uma perda?
Quanto custa nunca
mais conseguir engravidar?
Exija enxergar.
Mas…
como assim exija enxergar?
Como enxergar lá dentro do útero?!
Do mesmo jeito que a gente
faz para enxergar várias coisas
dentro do nosso corpo:
Ligar uma câmera,
uma luz… e olhar!
histeroscopia
Histero é útero, em grego e ‘oscopia’,
digamos que seja, ’colocar uma câmera’.
Histeroscopia é colocar uma
micro-câmera dentro do útero.
Para olhar!
Não há melhor forma de retirar
os restos que ficaram dentro de útero,
de uma perda.
A histeroscopia é ‘o’ exame quando
precisamos enxergar dentro do útero.
Mas… custa caro.
Histeroscopia custa caro, claro
Mas quanto custa um útero novo?
Um útero sem sequelas, sem sinéquias, custa quanto?
O material custa caro…
o procedimento leva mais tempo..
e…
poucos ginecologistas sabe fazer!
poucos foram treinados…
A histeroscopia é o o ideal a se buscar
para resolver tudo que não tiver
se resolvido espontaneamente.
O futuro ideal…
Mas, hoje, na realidade,
é só um sonho utópico a ser implementado…
Na prática, hoje, é:
se não tiver jeito, faça AMIU
Enquanto a histeroscopia é inascessível, vamos de…
AMIU! Aspiração Manual Intra Uterina
Não sei quem deu esse nome, né…
Mas, chega de querer trocar nome!
A aspiração não é exatameeeente manual…
é através de uma big seringa de Itú
que dá a impressão que vende naquelas revistinhas de Tapoé.
Acredito que faça bem menos mal
do que a curetagem, maaaas, com dois poréns:
1. ainda não temos tanta experiência - e hábito!
- como temos com a curetagem.
E tem que fazer com cuidado, também!
Não é porque é de plástico que faz menos mal, não!
Tem que prestar muuuuita atenção!
2. precisamos resistir à vontade quase irresistível de ‘dar uma curetadinha’ depois de terminar a AMIU…
Eu sei, eu sei…
Parece que não terminou
100% se não passar a cureta lá, né…
Eu sei…
Mas…
RESISTA!!!
Por um útero que
não sofra violência,
por um útero empoderado,
é, acima de tudo,
um movimento
de resistência!
não à violência reprodutiva
Vou sugeria a…
Lei Útero da Penha
Distribuir plaquinhas….
Este útero ainda
precisa fazer a
Mariana crescer!
Raspe com carinho!
faça o miso direito
faz direito esse miso!
Eu já vi isso acontecer
um milhão de vezes…
Chego no plantão
e passamos os casos…
“Marcela tá colocando Misoprostol
desde sei-lá-quando…”
Enquanto eu ouvia, já imaginava:
tudo dosagem baixa.
o miso e a pandemia
de dosagem errada
Minhas companheiras de plantão,
quando mais experientes que eu,
já queria ‘limpar o plantão’.
Não por maldade, não.
Por humaninde, mesmo.
Para resolver o problema
daquela pessoa que estava lá,
às vezes, há muuuuuuitos dias,
sem nada funcionar…
sem as coisas saírem do lugar…
Minha colega resolve:
-Cureta nas duas!
E, lá vou eu, brigar:
Não, Fulana, pera.
Pera lá. Deixa eu ir lá…
Deixa eu olhar… Quero examinar…
Minha colega,
virando os olhinhos:
Tá beeeeeemmmmmmmm…
E vamos lá.
Chegamos na porta do quarto
em que a paciente está.
Uma gritaria danada…
Junto com a paciente,
esperando perder…
eis que…
alguém, já já,
vai ganhar bebê por lá…
Eu não aguento…
Vou arás da enfermeira.
- Fabi, a paciente Marcela, tá fazendo Misoprostol…
e tá junto com uma paciente em trabalho de parto…
Ai, dotôra, eu sei….
Tentei não colocar….
Mas, não teve outro jeito…
Finjo que deixei pra lá.
Vou lá, examinar.
Peço à acompanhante
da moça em trabalho de parto,
para esperar lá fora um pouquinho.
Ei, Marcela, tudo bem?
Ai, dotôra, eu não aguento mais…
Estou a ponto de surtar…
Fiz ‘eu entendo’ com a cabeça.
Quem não surtaria
no lugar de Marcela?
Sem calcinha, com uma camisola do hospital.
Ouvindo gritos de uma outra mulher,
que já já, vai ganhar um bebêzão…
Pelada.
Cansada.
Estressada.
Abandonada.
Humilhada,
na minha opinião.
Tratada como um bicho.
Como um bicho, não.
Dos bichos a gente tem mais dó.
Mais consideração.
Tratada como uma Marcela.
Nos dias de hoje…
sortuda seria Marcela…
se estivesse sendo tratada
como uma cadela.
Teria mais colo, mais atenção,
mais entendimento.
Mais ela estava sendo tratada,
mesmo, como Marcela.
Será que posso te examinar?
Calço a luva,
examino.
Colo fechado,
nada de sangrar.
- Má, vou dar uma olhadinha
no seu prontuário e volto já, já.
Tá bem?
-Tá bem, dotôra…
Vê o que você pode fazer por mim…
Faço com a cabeça que sim.
Minha vontade, Marcela, é chorar.
É isso que eu gostaria de fazer, por você.
Te abraçar.
E chorar.
E deixar você, soluçar.
Pelada.
Com medo da bunda
ou da vulva aparecer.
Com medo.
Com fome…
Esperando um milagre acontecer…
Esperando a paz - e a dignidade - voltar.
Pego o prontuário de Marcela.
Misoprostol 200, 1 comprimido vaginal…
há 12 horas atrás…
É….
Complicado…
Minha colega, que me acompanhava, calada, resolve falar.
-Lê, vou curetar!
Pera, Má. Deixa eu tentar, só mais uma vez…
Pode ser?
Fizeram só 200…
E a dosagem anterior, também…
Ontem fizeram 4 de 25 a primeira dose…
Ela, contrariada e virando os olhinhos de novo
- pra ela, curetar é o melhor para a paciente… -
resolve me abandonar.
-Lê, vou lá ver as outras pacientes…
-Tá… vai lá… já já tô chegando lá…
Volto e faço a dosagem
de Misoprostol correta:
4 vezes a dosagem
que estavam fazendo antes.
As dosagens anteriores
não eram as corretas.
Por isso não funcionou.
E, pode piorar:
Eu já dei alta pra casa pra
muita paciente que fez
dosagens baixas por muitos dias.
Por que…
depois de muita dose baixa…
o corpo ‘acostuma com o Miso…
e, agora…
mesmo altas doses…
pode ser que não funcione…
Fazendo a dosagem certa,
desde a internação da paciente,
é muito raro não pegar….
fazer o misodireito…
na dose correta…
de acordo com a
idade gestacional do embrião…
no intervalo orientado pela FIGO…
vai diminuir
- drasticamente! -
a necessidade de
curetagens e AMIUs
e vai salvar nossos úteros.
e nossas pacientes…
da infertilidade….
por que a Marcinha
quer curetar e eu, não?
será preguiça minha?
A Marcinha quer resolver a vida da paciente.
Deixar as coisas arrumadas no plantão.
Ela tá certa.
Mas, se ela visse o que eu vejo…
todo santo dia…
um monte de útero infértil…
cheio de sinéquia….
inflamação, infecção…
de gente que não tinha nada…
até a hora que “precisou” fazer uma curetagem…
o que a curetagem
e a AMIU podem causar?
sinéquia…
hipo ou atrofia uterinas
endometrites….
curetagem,
só se precisar.
mu-i-to.
curetar um útero
aumenta muito…
a chance dele
vir a se tornar…
a causa pela qual…
alguém não vai
conseguir engravidar…
alguém…
não vai conseguir…
o seu neném…
gente que ganha
com gente que perde
Quem foi que
teve essa idéia?!?
Não, sério.
É o mesmo que sentar
pra comer e colocar alguém
para te ver comer com o prato vazio.
É desumano.
Me dá vontade de vomitar.
“Ah, dotôra…
Mas não tem onde colocar….”
Se vira, dá um jeito.
Faça qualquer coisa!
meeeenooosss…
colocar quem ganha…
com quem perde…
trabalho de aborto
e trabalho de parto
não podem
- em nenhuma hipótese! -
ficar no mesmo quarto!
fale da possibilidade
de levar o material
para ‘exame genético’
Ufa! Terminamos!
Se fizermos miso direito,
o material saiu na cama.
Pegue e coloque
em um potinho
tipo coletor de urina
e…
não coloque no formol!
Não é beeeeem um exame genético…
é um exame cromossômico, mas…
é como o povo costuma chamar…
explique que
o exame que o hospital
manda fazer, o anatomopatológico…
não serve para
absolutamente nada…
a não ser…
excluir mola…
e que…
para a gente fazer
um ‘exame genético’…
- na verdade, cromossômico -
a gente precisa,
a gente mesmo, levar
em um lugar especializado…
o plano de saúde
pode cobrir ou não…
e que eles tem
que correr atrás…
colocar no potinho,
com soro, nada de formol!
colocar em
uma sacolinha,
na geladeira.
sem deixar tombar,
pro soro não vazar!