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A MISSÃO

prólogo

Há anos eu ouço histórias.

Aprendi a escutar
sem a ânsia de retrucar.

Aprendi a ouvir o que
a outra precisa dizer.

A outra. Com a.

E foram essas histórias todas
ao longo de todos esses anos…

que me fizeram ver.

E, daí, eu percebi:

o que eu via
ninguém mais
parecia ver.

Por isso, estou aqui.

| maria

Maria não era
baixa nem alta.

Era magra.

Entrou no consultório
sem fazer barulho e evitando
me olhar diretamente nos olhos.

Fingia tranquilidade.

Sentou.

Colocou na mesa o envelope
que trazia em suas mãos.

-Doutora, preciso saber
se é verdade que não
posso ter filhos.

Peguei o envelope com a mesma reverência
com que havia sido colocado por ela.

Não quis destoar do tom reverente
que ela havia imposto à situação.

Abri.

FSH: 250,

Duzentos e cinquenta.

O valor mais alto de FSH
que eu já havia visto na vida
até aquele momento.

E, até este, também.

Acima de 30 normalmente encontramos
em quem já se encontra na Menopausa.

Abaixei a cabeça e
precisei disfarçar meu espanto
diante daquele valor tão alto…

Principalmente em se tratando
de alguém com…

32 anos…

Tentei fingir normalidade.

- É… realmente é um valor bastante alto….

Tem que repetir, né…
Ver se é isso mesmo…

E se for, dotôra?
Se for isso mesmo?

Significa que eu
não posso engravidar?!

Bem, se for isso mesmo…

realmente fica bem complicado
engravidar com os próprios óvulos…

Você acha que isso
aconteceu de um ano pra cá?!

Ah, não…

Isso vem acontecendo
há muitos anos, já, Maria…

Provavelmente há mais de 5, 10 anos…
Difícil falar…

-Mas, doutora…
não tem um jeito?

De baixar esse FSH?!

um remédio que eu possa tomar?

— perguntou sem mais conseguir
conter o desespero.

Faço o que precisar.
Dou um jeito de levantar o dinheiro!

Fiz que não, com a cabeça.

Peguei desenho de útero e ovário
que sempre uso para explicar:

-Então, Maria…

o FSH é produzido na hipófise…
uma glândula que fica dentro da nossa cabeça…

Ele cai na corrente sanguínea, chega ao ovário
e estimula o ovário a fazer os folículos crescerem.

Se o ovário está ‘cansado’
e não consegue ‘absorver’ esse hormônio
para produzir os folículos, quem está com problema?

O FSH ou o ovário?

o problema não é o FSH estar alto…

o problema é o ovário, cansado…
tentando economizar…

o restinho dos folículos…
e a energia…

Se o seu ovário não está dando conta
de produzir os folículos, o corpo,
em seu desespero, aumenta a produção do FSH…

pra ver se resolve o problema…

mas, não adianta…
porque o problema está no ovário…

e não na produção de FSH…

Ela não queria.

Mas entendia perfeitamente
tudo que eu estava tentando explicar…

Mas…

e se fizer uma FIV, dotôra?
Nem assim?!

-Mas nem fertilização ‘in vitro’ , doutora?!?

-Quando a gente faz FIV, a gente dá
muito FSH pro ovário produzir muitos
óvulos para a gente colher no fim do tratamento.

Se o seu corpo já tá produzindo
muito FSH e você não está conseguindo
engravidar, entende que não adianta a gente
dar mais hormônio ainda pra ele?

O problema não tá no hormônio.
Está no ovário.

Silêncio.

-Sua menstruação é regular? — perguntei

-Como um relógio.
De 28 em 28 dias.

-É… Estranho, né…

E abaixo a cabeça em respeito
ao luto que ela vivia

É como se seus possíveis filhos
tivessem todos morrido, dentro dela.

e, a notícia…

era eu quem tinha
acabado de dar…

Eu tinha acabado
de dar a ela a notícia
da morte de todos os seus óvulos…

e, por consequência,
de todos os seus filhos…

que ela pretendia ter com eles…

Eu havia acabado
de matar a esperança dela.

- Dotôra Letícia…então…
não posso ser mãe?

perguntou, já quase sem conseguir falar…

Eu fui tentar acalmar,
fazer o que podia, o que
estava a meu alcance tentar…

e, eu fui falar o que é possível
dizer em uma situação dessas…

e eu…

com medo de falar o que não devia…

e com medo de deixar de falar o que deveria…

tentei achar alguma coisa
que pudesse trazer um pouco de paz…

falei o que achei que deveria falar…

— respondi, dando o meu melhor
para tentar tirá-la do lugar de dor
e desespero em que se encontrava…

- Mas é claro que você
pode ser mãe, Maria!

Existem várias formas
de ser mãe, hoje em dia!

-Mãe não existe só biológica, Maria!

Podemos adotar um óvul…

-Eu não quero saber disso, Doutora!
- me interrompeu, ríspida

E, ali, eu ouvi a coisa mais forte
que, na minha vida inteira, eu ouvi:

- Eu quero matar minha ginecologista.

-Eu fui todos os anos no consultório dela.
E em todos os anos, eu perguntei para ela

- Doutora, tem algum exame que
eu possa fazer para ver se eu sou fértil?
Para checar a minha fertilidade?

E ele, todos os anos,
me respondeu:

- Está tudo bem, Maria!
Não se preocupe, Maria!

E, eu, confiei nele.
E, agora, dotôra…

Eu não posso ter filhos!!

A culpada, não sou eu!!!
A culpada é ela, dotôra Letícia!!!

Eu fiz tudo que eu podia fazer!!!

-Ela matou meus filhos.
Eu não vou poder ser mãe.

E ela é a culpada por isso ter acontecido.
E, de novo, repetiu, pragmática:

- Eu quero matar minha ginecologista.

Entendi que não era o momento de falar.

Era o momento de calar.
De escutar.

Maria tinha acabado
de ‘perder seus filhos’.

Todos.

De uma só vez.

E, a notícia…

era eu quem tinha
acabado de dar…

-A culpa não foi
minha, dotôra Letícia!

Eu tentei ver
se estava tudo bem!

Eu perguntei!! Todo ano!
Toda vez que eu fui lá!

Balancei a cabeça, dando
a entender que entendia
perfeitamente o que ela dizia…

- Sinto muito, Maria…

cabisbaixa…

Foi tudo que eu me permiti falar…

Pegou o envelope,
enxugando as lágrimas.

Guardou.

Arrumou o cabelo.
Consertou a postura.

Tossiu, tentando
desagarrar a voz de chôro.

-Obrigada, dotôra.

Levantou e se foi.

Sem me dar tempo suficiente
para conseguir levá-la até a porta…

Maria - que,
claro, não se
chamava Maria…

foi embora…
e eu, grávida…

fiquei ali…
parada…

olhando
pro nada…

chocada…

tentando absorver
o soco na cara que
havia acabado de receber…

Minha secretária:

-Dotôra, posso mandar a próxima?

-Não, calma… espera…

A frase de Maria
havia ficado presa…
ecoando na minha cabeça…

‘Eu quero matar meu ginecologista.’

Fiquei ali…

pensando em
tudo aquilo…

Na corre-corre do dia a dia…

cuidar de cada paciente…
não era suficiente…

Deus…

na Sua sabedoria…
me mandou Maria….

Eu sou pequena.
Não sou ninguém.

Se eu falar…
ninguém vai escutar

‘Eu já tento falar isso
há tanto tempo, já…’

Lembrei dos textões
que eu escrevia,
desde sempre…

Pensei, tentando
me convencer
que a culpada
não era eu.

Mas, era.

Era eu, sim.
Era eu também.

O ginecologista não
pode ser considerado culpado.

Ele não sabe.
Ele não conhece esse problema.

Eu, sim. Eu conhecia.
Eu tinha plena consciência.

Eu sabia que,
enquanto nós,
especialistas…

debatíamos coisas
sem muita utilidade…

a população…

sofria de
infertilidade…

As mulheres sofriam
de falta de conhecimento.

De desinformação.
Eu sabia.

Eu sempre tentei
falar, também.

Lembrei dos meus
textões no Facebook…

Ainda na época do Orkut…

Mas…

mas ninguém parava
muito para escutar…

E, quando não
tem ninguém ouvindo…

a gente, claro…
tende a parar de falar…

Mas…

aquele soco
me fez acordar…

Não é porque não
tem ninguém ouvindo…

que a gente
não precisa de falar…

Alguém passa mal no avião.

a aeromoça pergunta se
tem algum médico a bordo.

Eu nunca sou a primeira a levantar.
Nunca.

Eu sempre penso:

Não sou a
mais bem preparada.

só sei fazer parto…
só sei ajudar a engravidar…

Eu fico olhando…

Prestando atenção…
se alguém vai levantar…

se levanta…

eu fico prestando atenção
para ver se a pessoa vai conseguir resolver…

porque… pode ser…
que eu soubesse mais que ele…

daí se eu perceber que a pessoa
sabe menos do que eu…

ou, se não resolver…

daí eu vou…

eu espero para ver
se precisa ir mesmo…

não é por não
querer ajudar.

ao contrário.

é por achar que
tem gente bem mais
capacitada para ajudar.

Aconteceu exatamente
a mesma coisa aqui

Eu achava que eu não era
a melhor pessoa para estar aqui.

Eu esperei.
Pacientemente.

Olhei pra um lado…
pro outro…

Olhei assento por assento…

para ver se alguém
fazia algum menção
de levantar do assento…

se alguém esboçava
algum movimento…

Olhei para todos os lados…
com muita calma…
por muito tempo…

Esperei, pacientemente,
alguém mais capacitado
que eu levantar…

Observei bastante…
por bastante tempo…

Mas….

Só tinha eu….
com medo…

senti aquele sentimento
de síndrome de impostora…

Meu Deus… Será?!

Será que eu tenho
essa capacidade?

De ir lá?

((( Vi um ou outro movimento…
Cheguei a achar que não ia precisar…

Mas…

Vi gente pular do assento em 2 segundos
fazer toda uma aparição…

causar todo
um frisson…

mas…

resolver mesmo,
o problema…)))

Não podia ficar esperando para sempre…
Se não tinha mais ninguém que parecia que ia…

Era eu mesma que tinha.

Deus não escolhe os capacitados.
Ele capacita os escolhidos.

Mas, não tinha ninguém prestando
atenção suficiente para perceber o problema.

Tem tanta coisa errada…
E eu tô vendo todas…

O pior é que não
devem ser todas, ainda…

Mas…
já são muitas…

Alguém vai ter que ir lá…

E… se ninguém
mais levantou, eu vou….

Só eu mesma.

Pequena
Eu tinha que ir lá.

Mas…

E, hoje, convido você
a vir comigo nessa missão.

E, se você, assim como eu…
também não se sente competente
suficiente para esta missão…

Ótimo!

Vamos nos capacitar juntas! E juntos!

Deus não escolhe os capacitados.
Ele capacita os escolhidos.

Vamos nos capacitar.
Vamos montar um exército.

E, vamos lutar.

Deus não escolhe os capacitados.
Ele capacita os escolhidos.

Bora.

A hora é agora.
E é nobre a nossa missão!

E… se você está aqui…
é porque tinha que vir!

se você está aqui…

você também é um dos
revolucionários necessários
para entregar essa mensagem

Eu tinha que vir.

Eu tenho uma
mensagem para entregar.

Se Deus me entregou,
se Ele me escolheu…

Se Deus…
o Universo…

ou seja lá
como você
queira chamar…

me entregou…
é porque… é meu…

Com certeza, Deus
não escolheu quem
tinha mais capacidade.

Mas…

é bem possível
que Ele tenha escolhido
quem tivesse mais coragem…

Eu, com certeza,
não era a pessoa
mais capacitada…

Mas…

Deus não escolhe
os capacitados.

Ele capacita
os escolhidos.

Então, eu tô aqui.

Com a cara…
e com a coragem…

e, claro…

com medo de falhar…
e de fazer tudo errado….

Mas com a vontade
- e a coragem - de acertar.

E cumprir o que
é exigido de mim.

O que me foi mandado.

coragem s.f.

agir com o coração

missão: fertilidade

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