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marina

Foi uma transa só.

E Renata até tentou
tomar uma pílula
do dia seguinte.

Mas…
não funcionou…

Para desespero
da família…
aos dezessete…

embarrigou.

Sua mãe endoidou…

Mas…

apesar de
toda confusão
na família…

nasceu,
linda…

Marina.

E nem a mãe…
e nem a tia…

e nem qualquer
outra figura feminina…

conversou sobre
as coisas do corpo
com Marina.

Criança, curiosa,
toca nas partes íntimas.

Sente uma cosquinha.
“Tira a mão daí, menina!”

Reprimida,
parou de se tocar.

Assim como sua mãe,
sua avó e sua tia… Marina
não se conheceu….

Não conhece sua vulva.
Nem ssua vagina.

Não sabe direito
nem de onde o xixi sai.

Chega a puberdade.
Começa a menstruar.

Quanto pêlo!
Quanto peito!

Ganha um sutiã.
Mas, tem vergonha de usar.

As cólicas são fortes.
Marina, sofre.

‘A cólica é forte, Marina!
Mas, nóis é mais!
Mulher tem que aguentar!’

Mas…

de tanto Marina reclamar…

Sua mãe concordou
em levar ela no dotô
que fez seu parto…

E, olha que doido:

Tudo que Marina vai
saber sobre o seu corpo…

sobre seus hormônios…
e sobre a sua sexualidade…
Vai ser ensinado…
(você não vai acreditar…)

por um homem!
Doutor Eustáquio!

(tem como ser mais dramático?!)

‘É uma por dia, Marina.
Sete dias de intervalo.

sua cólica vai melhorar
e sua menstruação vai regulá.

E Marina vai embora com
o anti-concepcional na mão.

Na igreja, conhece Paulo.
Se apaixona.

Paulo procura uma
mulher direita,
pra casar.

No trabalho,
tinham assinado
sua carteira…

Casaram.

Marina não achava
graça nisso de transar…

como o povo
dizia gostar…

mas… fazia…
pra deixar Paulo feliz…

Orgasmo, só conhecia
de ouvir falar…

Paulo sempre
foi muito direito…

E, isso da mulher gozar…
que nem nos filmes que
ele via longe de Marina…

não era coisa pra
mulher direita…

Marina era uma
mulher ‘direita’…

E, por isso, ele
a escolheu para casar…

Paulo foi promovido.

E resolveram parar
a tal da pílula,
para engravidar.

Sem a pílula…

não é que
isso de transar…

Marina até
passou a gostar?

Um dia…
ficou até na dúvida…

se tinha tido o
tal do orgasmo!

Se tinha
conseguido gozar…

Misericórdia!

Será que era pecado?!

O que que Paulo ia achar?
Será que ia brigar?!

‘Alegria de pobre dura pouco. -
seu mãe sempre dizia.

E, com pouco tempo sem pílula,
uma dorzinha começou
a incomodar Marina…

E, cada mês que passava…

a disgramada…
parecia piorar…

Marina tentava esquecer.

“Mulher tem que ser forte, Marina!
Mais forte que a dor!” - se lembrou.

Mas…

começou a ficar
forte demais a dor
para Marina aguentar…

E, o bebê, que tanto queriam,
nunca parecia chegar…

Voltou no dotô.

-Dotô Eustáquio…
Meu neném não vem…

E a dor desse mês…
com certeza…

tá menos pior
do que a que eu vou
ter no mês que vem…

E, de novo, doutor Eustáquio
passou uma pílula anti-concepcional.

O mesmo tratamento da época
em que sua mãe, levou Marina
no dotô, lá atrás, também, por causa da dor.

Igual.

Mas, dotô…
- Marina tentava entender o dotô…

Esse remédio…
não é de evitá?

Como é que ele vai
me ajudar a engravidá?

É pílula mesmo, dotô?!
Que eu tenho que tomar?!

-Ah, Marina!
Sabe qual é seu problema?

Você quer saber mais que o dotô…

Doutor Eustáquio gostava
de falar na 3ª pessoa.

É uma por dia, Marina!

- Tá certo, dotô…me desculpa…
Obrigada, dotô!

Por meses e meses,
Marina tomou a pílula.

A dor controlou.

Mas, mesmo sem dor,
com pílula, transar, era
complicado para Marina…

Não tinha nenhuma vontade…

Mas…

para engravidar,
tinha que transar…

E, ela, transava…

Mesmo sem vontade!

Mesmo, ainda…
com um pouco de dor…

Mas, mesmo transando…
tomando anti-concepcional…
claro…

Marina não engravidou…

Foi, então, de novo, no dotô.

- Dotô Eustáquio,
tomei a pílula, certinho…
como mandou…

A dor até que melhorou…
Mas, meu neném, não chegou…

- Você tá muito ansiosa, Marina!

Tem que relaxar!
Senão não consegue engravidar!

faz esse exame das trompas, então!
para ver como estão!

E toma esse remédio
para ajudar na ovulação!

-Mas eu já ovulo, dotô! Todo mês!
Certinho! Vejo sair aquela gosminha!

- Mas você é teimosa, hein, Marina?
De novo querendo saber mais que o dotô!

E, sem fazer sua parte direito!

Que é de ficar relaxada
para conseguir engravidar!

O remedinho
é um por dia, 5 dias!

E muito coito!

- Coito?

- Kkkkk
Relação, Marina!
Molhar o biscoito!

-Ah, sim… Tá bem, dotô…
Muito obrigada!

E precisa fazer trassão pra olhá?

- Precisa, não, Marina!

-É só tomar e transá!

E não se esqueça
de colocar as
pernas pra cima!

Para ajudar
os espermatozóides
a entrar!

Apesar de toda dor
de cólica que tinha…

aquela não era, nem de longe…
a pior dor de Marina…

A dor que mais
doía em Marina…

era não poder fazer,
de Paulo, pai… como
ele tanto queria…

Dar a ele um filhinho…
de preferência… um menininho…
Paulinho… Como ele sempre sonhou…

Marina se sentia
ôca… vazia…
menos mulher…

incapaz…

Tinha medo que
Paulo a largasse…

Ela o amava demais…

Falar que foi fazer a HSG

E, assim, foi.
Um mês, dois, três….

e…
engravidou!

Comprou uma roupinha
pra fazer uma surpresinha pro papai.

Paulo ficou todo bobo.

Chorou.

Esperaram, nervosos,
o dia do ultrassom chegar.

- Ei, bom dia, tudo bem?
Tira a roupinha, pode deitar.

Infelizmente…
não dá pra ver nada…

Mas, dotô…
tá tudo bem?

Foi tão difícil
de conseguir
essa gravidez…

Não tem alguma coisa
para eu tomar para segurar?

Põe esse remédio
na vagina, Mariana….

E volta em10 dias,
pra gente olhar…

Voltaram, 10 dias depois.

E, mais uma vez…
não deu para ver nada…

- Sinto muito, Marina…
O coração parou de bater…

‘Não era pra ser.’
- Marina pensou. Quis pensar.

Que se há de fazer…

Ainda tinha uns comprimidos
do remedinho que dotô Eustáquio
havia passado para ovular…

será que tinha sido ele
que tinha ajudado a engravidar?

e como ‘quase deu certo’…

ela muito ansiosa, resolveu
tomar de novos os comprimidos…

dessa vez, por conta própria…

Viu um vídeo na internet e
resolveu aumentar um pouco
a dose, agora…

Tomar um pouco a mais…

Quem sabe não era isso que precisava
para resolver de vez as coisas por lá?

Se…

com um por dia…
ela tinha conseguido engravidar…

Com dois por dia…
havia de conseguir segurar…

e só não conseguiu segurar
porque tinha ficado ansiosa demais…

Agora, com o dobro da dose…

Ela ia tentar ficar
mais relaxada…

Estava muito esperançosa
que desse certo…

Havia de dar…
Havia de vingar…

Havia de funcionar…

Dessa vez, demorou um pouco mais
para o positivo chegar…

Engravidaram no 5º mês…

E, agora…
com medo de perder…

nem quiseram comemorar demais…

- Melhor esperar o ultrassom
- Paulo falou.

E, lá foram eles…

fazer um ultrassom
mais uma vez…

E, agora…

Logo de cara…

viram o tal
do saco gestacional.

E… tinha uma surpresinha!
Não era um só!

Eram dois!

Dois sacos gestacionais!

Marina e Paulo
estavam grávidos de gêmeos!

Dois! Gêmeos!
Vieram em dobro!

Meu Deus!
Que felicidade!

a gravidez - e a felicidade!
havia chegado!

e…

com juros e
correção embrionária!

Foi tanta felicidade que,
embora o dotô tivesse recomendado cautela…

eles não aguentaram segurar a informação!

Contaram pra todo mundo!

Todos ficaram super felizes!
E deram muitos parabéns pro Paulinho!

- Parabéns, Paulinho!
De dois! Em uma só tacada!
Uau! Isso é que é sêmen bão!

Ele abaixava a cabeça
e agradecia, envergonhado…

Vermelho e…. orgulhoso!

-Paulinho, vai ter que
arrumar outro emprego!

Dariam um jeito.
Onde come um, come dois. - Paulinho pensou.

Nada no mundo pagava o preço
de parar de ser considerado um ‘porra rala’
como Fulano sempre o chamava nas peladas…

E ele tava feliz de ter
engravidado Marina de dois e de
não ser mais considerado um ‘porra rala’…

Agora, consideravam ele ‘um homão’!
Embarrigou a mulher de dois!

Marina, estava feliz demais.

Pela gravidez e por, finalmente…
poder dar a Paulinho um filho, de presente…

E, também… por todos, agora,
acharem Paulinho ‘um homão’…

Ela se sentiu segura de estar casada
com alguém que todo mundo considera bom…

Ficou feliz de terem achado Paulinho ‘um homão’

Mas…

ela sabia que a gravidez de gêmeos
tinha acontecido por conta dela ter
tomado o dobro do remédio de ovulação…
aborto retido.

Tem que internar,
pra curetar.

Cureta feita,
“pronta pra outra”
(ela nunca está…)

Engravida de novo,
sem perder peso,
sem checar nada.

Clomifeno novamente.

Sem libido.
Com endométrio horrível
Acima do peso.

Trompas sem funcionar.

Quando ela vem procurar ajuda

Se ela tiver sorte,
a gente dá diagnóstico de ISCA pra ela
e vende uma FIV

Se tiver azar…
a gente dá de falência ovariana

E vende uma FIV com “ovorrecepção”

Perde de novo.

Agora, sim, o circo tá montado.

Faz Miso tudo errado,
“não dá certo”,
faz uma AMIU e
complementa com
uma “curetinha”.

Cureta de novo.

Agora não tem jeito, minha filha.

Você tem Trombofilia.

E tome Enoxiparina.

Especialista em Reprodução:

Só a FIV pode te ajudar.

Eles junta dinheiro por anos.

E vai.

Mulheres chegando pra engravidar
tudo perdida e ferrada

Mulheres chegando para
congelar óvulos com 40 anos

Se abortar a gente faz
Misoprotol tudo errado

mais um aborto, infelizmente,

Mandam ela pro
‘especialista em perdas’.

Diagnóstico: Trombofilia

com 100% de certeza…

E, outro ciclo se inicia…

Não investiga mais nada…

porque… afinal…
já tem trombofilia…

Pedimos mil exames
que o plano não cobre…

e que custam super caro…

e que não servem pra nada…

Dão um jeitinho de fazer
porque o dotô falou do quanto
era importante fazer esse exame…

O ‘especialista em perda’,
prescreve Enoxiparina…

O sistema é infértil.

Está aparelhado pela infertilidade.

Para a infertilidade acontecer
não há grandes coisas a se fazer…

A infertilidade é sistêmica.

A mulher, para ser infértil…
não precisa se esforçar…

Basta seguir o fluxo
que o sistema vai levar você…

Basta se deixar levar…

É só se deixar levar…

mulher alienada,
tomadora de pílula

ginecologista ‘de convênio’,
prescritor de pílula e de clomifeno
diagnostica ansiedade e manda por as pernas pra cima…

histerossalpingografista,
laudo de ‘trompas normais’, se o líquido passar

ginecologista, do plantão
fazedor de curetagem (e AMIU)…

especialista, na clínica de reprodução
vendedor de FIV

‘especialista em perdas’,
prescritor de enoxiparina

Mas…

como foi
que isso aconteceu?

por que o sistema
foi montado assim?

como o limbo da
infertilidade se formou?

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